Questão 1
(Enem)
No romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, o vaqueiro Fabiano encontra-se com o patrão para receber o salário. Eis parte da cena:
Não se conformou: devia haver engano. [...] Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria?
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não.
Graciliano Ramos. Vidas secas. 91. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.
No fragmento transcrito, o padrão formal da linguagem convive com marcas de regionalismo e de coloquialismo no vocabulário. Pertence à variedade do padrão formal da linguagem o seguinte trecho:
A) “Não se conformou: devia haver engano”.
B) “e Fabiano perdeu os estribos”.
C) “Passar a vida inteira assim no toco”.
D) “entregando o que era dele de mão beijada!”.
E) “Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou”.
Questão 2
(Enem)
Motivadas ou não historicamente, normas prestigiadas ou estigmatizadas pela comunidade sobrepõem-se ao longo do território, seja numa relação de oposição, seja de complementaridade, sem, contudo, anular a interseção de usos que configuram uma norma nacional distinta da do português europeu. Ao focalizar essa questão, que opõe não só as normas do português de Portugal às normas do português brasileiro, mas também as chamadas normas cultas locais às populares ou vernáculas, deve-se insistir na ideia de que essas normas se consolidaram em diferentes momentos da nossa história e que só a partir do século XVIII se pode começar a pensar na bifurcação das variantes continentais, ora em consequência de mudanças ocorridas no Brasil, ora em Portugal, ora, ainda, em ambos os territórios.
CALLOU, D. Gramática, variação e normas. In: VIEIRA, S. R.; BRANDÃO, S. (orgs.). Ensino de gramática: descrição e uso. São Paulo: Contexto, 2007 (adaptado).
O português do Brasil não é uma língua uniforme. A variação linguística é um fenômeno natural, ao qual todas as línguas estão sujeitas. Ao considerar as variedades linguísticas, o texto mostra que as normas podem ser aprovadas ou condenadas socialmente, chamando a atenção do leitor para a
A) desconsideração da existência das normas populares pelos falantes da norma culta.
B) difusão do português de Portugal em todas as regiões do Brasil só a partir do século XVIII.
C) existência de usos da língua que caracterizam uma norma nacional do Brasil, distinta da norma nacional de Portugal.
D) inexistência de normas cultas locais e populares ou vernáculas em um determinado país.
E) necessidade de se rejeitar a ideia de que os usos frequentes de uma língua devem ser aceitos.
Questão 3
(Enem)
Há certos usos consagrados na fala, e até mesmo na escrita, que, a depender do estrato social e do nível de escolaridade do falante, são, sem dúvida, previsíveis. Ocorrem até mesmo em falantes que dominam a variedade padrão, pois, na verdade, revelam tendências existentes na língua em seu processo de mudança que não podem ser bloqueadas em nome de um “ideal linguístico” que estaria representado pelas regras da gramática normativa. Usos como ter por haver em construções existenciais (tem muitos livros na estante), o do pronome objeto na posição de sujeito (para mim fazer o trabalho), a não concordância das passivas com se (aluga-se casas) são indícios da existência, não de uma norma única, mas de uma pluralidade de normas, entendida, mais uma vez, norma como conjunto de hábitos linguísticos, sem implicar juízo de valor.
CALLOU, D. Gramática, variação e normas. In: VIEIRA, S. R.; BRANDÃO, S. (orgs.). Ensino de gramática: descrição e uso. São Paulo: Contexto, 2007 (fragmento).
Considerando a reflexão trazida no texto a respeito da multiplicidade do discurso, verifica-se que
A) estudantes que não conhecem as diferenças entre língua escrita e língua falada empregam, indistintamente, usos aceitos na conversa com amigos quando vão elaborar um texto escrito.
B) falantes que dominam a variedade padrão do português do Brasil demonstram usos que confirmam a diferença entre a norma idealizada e a efetivamente praticada, mesmo por falantes mais escolarizados.
C) moradores de diversas regiões do país que enfrentam dificuldades ao se expressar na escrita revelam a constante modificação das regras de emprego de pronomes e os casos especiais de concordância.
D) pessoas que se julgam no direito de contrariar a gramática ensinada na escola gostam de apresentar usos não aceitos socialmente para esconderem seu desconhecimento da norma padrão.
E) usuários que desvendam os mistérios e sutilezas da língua portuguesa empregam formas do verbo ter quando, na verdade, deveriam usar formas do verbo haver, contrariando as regras gramaticais.
Questão 4
(Enem)
Essa pequena
Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com elaMeu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena
CHICO BUARQUE. Disponível em: www.chicobuarque.com.br. Acesso em: 31 jun. 2012.
O texto Essa pequena registra a expressão subjetiva do enunciador, trabalhada em uma linguagem informal, comum na música popular. Observa-se, como marca da variedade coloquial da linguagem presente no texto, o uso de
A) palavras emprestadas de língua estrangeira, de uso inusitado no português.
B) expressões populares, que reforçam a proximidade entre o autor e o leitor.
C) palavras polissêmicas, que geram ambiguidade.
D) formas pronominais em primeira pessoa.
E) repetições sonoras no final dos versos.
Questão 5
Marque V (verdadeiro) ou F (falso) para as seguintes afirmações:
( ) As variações linguísticas podem ser históricas ou geográficas.
( ) As variações linguísticas podem ser diacrônicas ou diatópicas.
( ) As variações linguísticas podem ser diastráticas ou diafásicas.
A sequência correta é:
A) V, V, F.
B) V, V, V.
C) V, F, F.
D) V, F, V.
E) F, V, F.
Questão 6
Em que consiste o preconceito linguístico?
A) Valorização da variedade padrão e menosprezo a outras variedades linguísticas.
B) Valorização da linguagem coloquial por desconhecimento da variedade padrão.
C) Um sistema de valores puramente linguístico e de forma alguma social ou político.
D) A defesa acalorada de que não existe uma forma certa ou errada de expressão.
Questão 7
Analise estas afirmações:
I- A linguagem formal está associada à variedade padrão de uma língua.
II- A linguagem informal está associada à expressão coloquial.
III- A gíria é um exemplo de linguagem de cunho puramente formal.
Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s):
A) I apenas.
B) II apenas.
C) III apenas.
D) I e II apenas.
E) I, II e III.
Questão 8
O processo de variação histórica é responsável por alteração na grafia das palavras. Cada alternativa abaixo especifica a mudança ou variação no termo em destaque, de forma que a única explicação INCORRETA é que:
A) o termo “você” é resultante de “vossa mercê”.
B) a palavra “eloquente” já foi escrita com trema, ou seja, “eloqüente”.
C) o vocábulo “ideia” era grafado com acento, isto é, “idéia”.
D) a palavra “telefone” já foi escrita com “ph”, ou seja, “telephone”.
E) o termo “chinesa” já foi escrito com “ss”, isto é, “chinessa”.
Questão 9
Marque V (verdadeiro) ou F (falso) para as seguintes afirmações:
( ) A variação geográfica também é chamada de variação diatópica.
( ) A palavra “jerimum” é um exemplo de variação geográfica.
( ) A variação geográfica também é chamada de variação diacrônica.
A sequência correta é:
A) V, V, V.
B) V, F, F.
C) V, F, V.
D) F, V, F.
E) V, V, F.
Questão 10
Todas as alternativas abaixo estão corretas, EXCETO:
A) A variação social é verificável nas diferenças linguísticas entre falantes de faixas etárias distintas.
B) A gíria é um exemplo não só de variação geográfica, mas também de variação social.
C) Os jargões ou termos técnicos não devem ser exemplos de variação social.
D) A variação social também é chamada de variação diastrática.
E) Expressões utilizadas por grupos sociais específicos fazem parte da variação social.
Questão 11
Analise estas afirmações:
I- A variação estilística também é chamada de diafásica.
II- O contexto situacional é determinante na variação estilística.
III- A linguagem formal e a linguagem informal são tipos de variação estilística.
Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s):
A) I apenas.
B) II apenas.
C) III apenas.
D) I e II apenas.
E) I, II e III.
Questão 12
O poeta da roça
Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabaio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mio.
Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.
[...]
ASSARÉ, Patativa do. Inspiração nordestina. Rio de Janeiro: Circuito, 2018.
As expressões “fio das mata”, “cantô”, “trabaio”, “chupana”, “páia”, “mio”, “poeta das brenha”, “papé”, “argum”, “veve”, “percura” e “amô” são exemplos de:
A) preconceito linguístico.
B) linguagem formal.
C) variação social.
D) variação histórica.
E) variação diacrônica.
Resposta Questão 1
Alternativa A.
São coloquiais expressões como: “perdeu os estribos”, “no toco”, “mão beijada” e “amunhecou”.
Resposta Questão 2
Alternativa C.
O texto afirma: “Motivadas ou não historicamente, normas prestigiadas ou estigmatizadas pela comunidade sobrepõem-se ao longo do território, seja numa relação de oposição, seja de complementaridade, sem, contudo, anular a interseção de usos que configuram uma norma nacional distinta da do português europeu”. Em seguida, o autor do texto deixa claro que está colocando isso em evidência: “Ao focalizar essa questão, [...], deve-se insistir na ideia de que essas normas se consolidaram em diferentes momentos da nossa história [...]”.
Resposta Questão 3
Alternativa B.
O texto afirma: “Há certos usos consagrados na fala, e até mesmo na escrita, que, a depender do estrato social e do nível de escolaridade do falante, são, sem dúvida, previsíveis. Ocorrem até mesmo em falantes que dominam a variedade padrão, pois, na verdade, revelam tendências existentes na língua em seu processo de mudança que não podem ser bloqueadas em nome de um ‘ideal linguístico’ que estaria representado pelas regras da gramática normativa”. Portanto, mesmo os falantes mais escolarizados, que dominam a variedade padrão, empregam variedade linguística que contraria a norma culta, como o uso do verbo “ter” em lugar do verbo “haver”.
Resposta Questão 4
Alternativa B.
O texto apresenta as seguintes expressões populares: “Meu tempo é curto”, “nossa novela”, “Meu dia voa”, “conto os meus minutos”, “anda noutro mundo”, “vou penar com essa pequena”, “valeu a pena”. Essas expressões, conhecidas pelo leitor em seu dia a dia, permitem a proximidade com o autor. Afinal, em tese, em uma letra de música popular, se o autor usa uma linguagem formal ou culta, ele vai afastar o leitor ou ouvinte de MPB (Música Popular Brasileira).
Resposta Questão 5
Alternativa B.
As variações linguísticas podem ser diacrônicas (variações históricas), diatópicas (variações geográficas), diastráticas (variações sociais) ou diafásicas (variações estilísticas).
Resposta Questão 6
Alternativa A.
O preconceito linguístico é verificado quando uma pessoa valoriza a variedade padrão, de forma a considerá-la superior, enquanto considera outras variedades linguísticas como inferiores. Porém, isso não é um fenômeno linguístico, mas social e político, já que as variedades desprestigiadas são utilizadas por pessoas de grupos sociais marginalizados. Portanto, o preconceito linguístico ocorre para menosprezar determinados grupos sociais que utilizam determinadas variedades linguísticas.
Resposta Questão 7
Alternativa D.
A gíria é usada em um contexto de informalidade, em que o falante de uma língua tem mais liberdade na expressão, não se importando em seguir as regras da gramática normativa ou com o uso de uma linguagem padrão e, possivelmente, compreendida por todos.
Resposta Questão 8
Alternativa E.
Na história da língua, não há registro de que a palavra “chinesa” já tenha sido escrita com “ss”.
Resposta Questão 9
Alternativa E.
A palavra “jerimum” é um exemplo de variação geográfica que ocorre no Norte e no Nordeste do Brasil. Já no Sul e no Sudeste, a palavra utilizada é “abóbora”, de forma que há variação linguística de uma região para outra. Por fim, a variação histórica também é chamada de variação diacrônica, enquanto a variação geográfica é chamada de variação diatópica.
Resposta Questão 10
Alternativa C.
Os jargões também fazem parte do processo de variação linguística social. Afinal, tal variação consiste em diferenças linguísticas entre diferentes grupos sociais. Portanto, os jargões de médicos, advogados, linguistas etc. são específicos, de forma que, se você não é especialista em uma dessas áreas, pode não entender bem o que os integrantes desses grupos estão falando ou escrevendo. Já a gíria é uma variação geográfica, já que regiões distintas apresentam gírias distintas, mas também uma variação social, pois é usada por grupos específicos.
Resposta Questão 11
Alternativa E.
A variação estilística ou diafásica é aquela que depende do contexto de uso da língua. Em contextos formais (por exemplo, apresentação de um trabalho acadêmico), é utilizada a linguagem formal. Já em contextos informais (por exemplo, reunião entre amigos da escola), é utilizada a linguagem informal.
Resposta Questão 12
Alternativa C.
As expressões destacadas são marcas de linguagem coloquial e, portanto, informal, usadas por determinado grupo social que não domina a norma-padrão da língua portuguesa. Tal grupo pode, portanto, ser vítima de preconceito linguístico. No entanto, os versos valorizam essa forma coloquial de se expressar. Já a variação histórica (ou diacrônica) está associada às mudanças na língua no decorrer do tempo. Nas expressões destacadas, não houve mudanças com o passar dos anos. Assim, as expressões “cantor” e “cantô”, por exemplo, coexistem em contextos e grupos sociais distintos. Seria exemplo de variação histórica se a palavra “cantor” parasse de ser usada e fosse substituída por “cantô”.